A gente sempre sonha em como será o pedido de… coisa demodê falar de pedido de casamento. Digamos assim: “proposta de viver juntos?”
Ela o encarava apenas como um caso fugaz, já tinha desencanado de algo sério com ele. Aparecia de vez em nunca, o sexo era às mil maravilhas, mas o figura tinha papos contraditórios. Ao mesmo tempo em que ligava tarde da noite dizendo ser ela a mulher da vida dele (devia estar bêbado!), também conseguia desaparecer sem deixar rastro, um e-mail sequer.
Tocava sua solidão tentando manter uma “rede” de fãs que pudessem eventualmente abastecê-la.
Um dia o andarilho voltou. Após um sumiço prolongado, aparece querendo marcar um encontro. Ok, vamos lá.
No encontro o achou um pouco mais gordo, um pouco mais velho… Tudo bem, não era muito exigente. Apenas viu que o encanto das primeiras vezes tinha se esvaído.
O local era discreto, nem muito romântico, nem muito formal e ele começou a fazer um resumo da vida. Havia viajado bastante, muitos lugares, pessoas (mulheres! pensou ela), trabalho, aquele papo masculino padrão.
Ela na dela, ainda sem conseguir avaliar direito seus sentimentos em relação a ele. Tanto tempo já havia passado… Ele garantiu que não tinha tido nenhuma outra mulher neste período. Ela resolveu afirmar o mesmo. Mentira merece mentira.
Ela sugeriu que passassem um fim de semana em algum hotel fazenda, um programinha assim… Daí veio o que não estava no script.
“Você viveria numa fazenda comigo?”
“Como?”
“É isso mesmo! Você viveria comigo em uma fazenda? Estou cansado desta vida! Quero chegar em casa e ter uma mulherzinha me esperando! Quero alguém para cuidar do jardim juntos, fazer uma horta, tomar café da manhã juntos aos domingos! Sabe o pior dia da semana? É domingo pela manhã, quando acordo e não tenho ninguém ao lado!”
Ficou sem ação. O que falar? O que responder? Aquele tapa assim, logo de cara, logo na cara!
“Vamos namorar primeiro, a gente se conhece tão pouco…”
“Você não vê que não temos tempo pra namorar?! – disse ele meio aflito – “Moramos longe um do outro, nossas agendas são inconciliáveis, é impossível!”
“Peraí, isto é uma proposta de casamento?”
“É, é, é isso mesmo! Uma proposta de casamento!”
Sensação estranha. Já havia passado por dois relacionamentos sérios, escolhas na doida, insanidade da juventude, aquela fase desvairada, do pagar pra ver. Na verdade havia se casado porque engravidara primeiro, daí juntar os trapos era a tendência natural. Não conhecia bem os figuras, as famílias, todos aqueles equívocos. E agora mamãe? Socorro!
Imaginava que nunca ouviria uma proposta daquelas, ainda mais assim, na lata, na bruta. Já havia passado desta fase.
A sensação era estranha. Ao invés de ficar lisonjeada, sentiu um certo desconforto.
“Mas você toparia uma mulher que trabalhasse fora?”
“É… talvez assim… um trabalho meio expediente…”
Ela gelou! Logo ela que chegou a ter três empregos ao mesmo tempo! Só chegava em casa pra cair na cama! Agora ficar limpinha e cheirosinha esperando seu homem!?
Ao mesmo tempo teria uma certa tranqüilidade financeira, um carro melhor, roupas melhores, passeios interessantes, aqueles perfumes ma-ra-vi-lho-sos! Poderia fazer aqueles cursos de jardinagem e artesanato incríveis… Aprenderia novas receitas de culinária, afinal tinha pendores para a cozinha também!
Tentou com todas as forças imaginar um dia-a-dia ao lado de um homem. Surgiam lacunas na memória, amnésia adquirida de relacionamentos pregressos.
Homem reclamando de roupa mal lavada ou passada, a comida era só aquilo, a bagunça da casa, o barulho das crianças, você não pára em casa e não me dá atenção…”
A pão duragem… quanto mais ganham, mais pão-duros são, ou será que ganham muito porque são pão-duros?
Ter que dividir a cama novamente. O ronco, o suor, o espaço ocupado ao lado, a bagunça dele na pia do banheiro…
Teriam gostos musicais parecidos? Gostariam dos mesmos filmes?
Pensou em sua vida atual. Na luta diária sozinha, driblar as contas a cada dia, tentar passar às crianças os melhores valores possíveis, rezar para que se virassem bem sem ela, sentir o peso da exclusividade na educação da turminha…
Aquela vida sem companheiro até certo ponto parecia uma praga rogada pela sociedade, uma maldição desta encarnação, mas agora, após a sondagem de casamento…
Metódica que era, faria uma listinha dos prós e contras de cada situação. Ou não faria? Seria pior. Deveria ser racional agora? Havia sido sempre passional e se dado mal...
Pensou rapidamente, em questão de segundos, em tudo que conseguia lembrar para colocar na balança da decisão.
Até então imaginara que sua vida de separada era falta de opção. Olhou para o pretendente, percebeu não ter mais aquele sonho infanto-feminino de casamento, de comunhão a dois, até que “as diferenças irreconciliáveis os separem”. Não, não queria nada naqueles moldes e respondeu: “Vou pensar.” Aquele vou pensar soando como um não.
E descobriu que sua vida não era uma falta de opção e sim a opção. A melhor que tinha.
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